Blockchain e Criptoativos

Rastreamento de criptoativos: até onde a blockchain permite seguir valores e identificar responsáveis?

Por Alan Badenas dos Santos · Publicado em 5 de outubro de 2026 · 9 min de leitura

Capa do artigo sobre rastreamento de criptoativos, com uma moeda e um fluxo de transações.
Neste artigo

A blockchain permite reconstruir fluxos com alta granularidade, mas seguir valores, agrupar endereços e identificar responsáveis são operações tecnicamente diferentes.

Em uma frase

Trajetória on-chain, inferência heurística e atribuição a uma pessoa ou entidade devem ser comunicadas em níveis separados.

Resumo executivo

A transparência das blockchains públicas permite acompanhar fluxos financeiros com uma granularidade inexistente em muitos sistemas tradicionais. Isso não significa, entretanto, que rastrear fundos seja sinônimo de identificar pessoas. Técnicas de transaction tracing, clustering e attribution tagging conseguem reconstruir caminhos e agrupar endereços, mas enfrentam limitações introduzidas por mixers, CoinJoin, bridges, Layer 2, DEXs, privacy-enhancing technologies e ausência de ground truth. Este artigo descreve o estado atual de blockchain forensics e propõe um padrão de comunicação pericial que diferencie trajetória observável, inferência heurística e identificação corroborada.

Palavras-chave: blockchain forensics; transaction tracing; clustering; mixers; bridges; criptoativos.

1. Rastrear um valor não é o mesmo que rastrear uma “moeda” individual

Em Bitcoin, o modelo UTXO facilita seguir relações entre outputs não gastos. Em redes account-based, como Ethereum, a análise é baseada em mudanças de saldo, chamadas e eventos. Em tokens, o fluxo pode depender de contratos. Em DeFi, uma única transação pode conter swaps, empréstimos, bridges e chamadas internas.

Portanto, “seguir o dinheiro” exige compreender o modelo de dados da rede. Não existe um algoritmo universal aplicável da mesma forma a todas as chains.

2. A base: transaction graph

Uma investigação normalmente começa com um conjunto de endereços, transações ou entidades conhecidas e constrói um grafo:

  • nós: endereços, contas, contratos ou entidades;

  • arestas: transferências ou interações;

  • atributos: valor, token, tempo, protocolo, chain, tipo de evento.

Esse grafo permite responder perguntas como:

  • para onde os ativos foram enviados?

  • houve consolidação ou dispersão?

  • quais serviços receberam os fundos?

  • houve swap para outro ativo?

  • houve passagem por bridge?

  • quais endereços reaparecem em diferentes etapas?

A visualização ajuda, mas a conclusão precisa ser baseada nos dados e regras de transformação que construíram o grafo.

Grafo de transações com relações observáveis entre endereços, serviços e ativos.
Figura 1 — Transaction graph: relações observáveis entre endereços, serviços e ativos

3. Clustering: poderoso, mas heurístico

No Bitcoin, uma técnica clássica é a multi-input heuristic: inputs utilizados na mesma transação podem sugerir controle comum. Outra família de métodos tenta identificar change addresses.

Essas técnicas foram fundamentais para deanonymization, mas a literatura moderna enfatiza limitações. CoinJoin, carteiras modernas, novos padrões de transação e técnicas de privacidade podem invalidar premissas simplistas. Pesquisas de 2024 e 2025 chamam atenção para incerteza em clustering e falta de ground truth para validar resultados.[1][2]

Em um laudo, “estes endereços pertencem à mesma pessoa” é muito mais forte do que “estes endereços foram agrupados pela heurística X”. A segunda formulação é tecnicamente mais transparente quando não há confirmação independente.

4. Attribution tagging: onde o mundo on-chain encontra o off-chain

Uma carteira passa a ser atribuída a uma entidade quando surgem elementos externos:

  • depósito ou saque documentado em exchange;

  • dados fornecidos por VASP;

  • endereço publicado pela própria entidade;

  • apreensão de dispositivo;

  • seed ou private key;

  • registros de login;

  • documentação comercial;

  • investigação anterior validada;

  • tags de analytics com metodologia conhecida.

Esse estágio é decisivo. A blockchain mostra um fluxo; a atribuição vincula o fluxo a uma entidade do mundo real.

Por isso, ferramentas comerciais de blockchain analytics podem ser extremamente úteis, mas a perícia deveria distinguir entre dado público reproduzível e inteligência proprietária do fornecedor.

5. Mixers: obfuscação não significa invisibilidade absoluta

Mixers tentam quebrar a relação aparente entre entrada e saída. Isso dificulta a análise, mas não garante que toda inferência desapareça.

Pesquisa apresentada no DFRWS EU 2025 examinou mixers de Bitcoin e identificou padrões operacionais, peeling chains e cenários nos quais conhecimento parcial ainda possibilita correlação.[3] Outro trabalho de 2025 mostrou uso de wallet fingerprinting para explorar padrões de tumblers.[4]

Esses resultados não autorizam conclusões automáticas. Eles mostram que análise estatística e comportamental pode produzir pistas mesmo em ambientes desenhados para obfuscação.

A redação pericial deveria indicar claramente o grau de confiança e a natureza inferencial da correlação.

6. Bridges e chain hopping mudaram a escala do problema

O rastreamento moderno não pode assumir uma única blockchain.

Bridges permitem mover representação de valor entre redes. DEXs permitem trocar ativos sem uma exchange custodial tradicional. Layer 2 e rollups adicionam camadas de execução e liquidação.

Estudos de 2025–2026 desenvolveram métodos para correlacionar transações entre Ethereum e Polygon e para integrar Layer 1, Layer 2 e bridges em frameworks forenses.[5][6]

A investigação cross-chain exige:

  • identificar o bridge contract;

  • compreender lock/mint ou burn/release;

  • correlacionar valores, tokens e tempo;

  • identificar relayers;

  • normalizar unidades e decimals;

  • distinguir ativo nativo, wrapped e synthetic;

  • verificar se a bridge é canônica ou third-party.

Uma linha em um gráfico dizendo “cross-chain transfer” pode esconder vários eventos técnicos distintos.

Fluxo de bridge cross-chain em que uma transferência corresponde a vários eventos técnicos.
Figura 2 — Bridge cross-chain: uma transferência pode representar vários eventos técnicos

7. DEXs e swaps não quebram o histórico, mas transformam o objeto rastreado

Imagine 10 ETH trocados por USDC. O fluxo deixa de ser “os mesmos ETH” e passa a ser um encadeamento econômico.

Em uma DEX, a perícia deve analisar:

  • pool ou aggregator utilizado;

  • token in e token out;

  • valores líquidos;

  • fees;

  • slippage;

  • chamadas internas;

  • roteamento por múltiplos pools;

  • eventual MEV relevante;

  • contratos proxy.

O conceito de “seguir o valor” precisa ser definido metodologicamente. Caso contrário, o relatório pode aparentar continuidade onde houve transformação econômica complexa.

8. Stablecoins e unhosted wallets

A FATF dedicou relatório específico em 2026 aos riscos associados a stablecoins e transações P2P via unhosted wallets.[7] Essas carteiras não eliminam rastreabilidade on-chain, mas reduzem a disponibilidade imediata de dados cadastrais de um intermediário regulado.

Assim, investigações frequentemente dependem de encontrar algum ponto de contato com:

  • exchange;

  • issuer;

  • payment processor;

  • merchant;

  • bridge operator;

  • custodial service.

No caso de stablecoins centralizadas, a arquitetura do emissor também pode produzir eventos relevantes, como freeze, blacklist ou redemption.

9. DeFi: controle e entidade podem ser difíceis de definir

A FATF também atualizou em 2026 sua análise de DeFi, enfatizando uma abordagem funcional e baseada em risco para identificar estruturas de controle.[8]

Para a perícia, DeFi cria questões próprias:

  • quem controla admin keys?

  • existe multisig?

  • há timelock?

  • quem pode fazer upgrade?

  • o frontend é separado do protocolo?

  • um DAO exerce controle efetivo?

  • qual implementação estava ativa no bloco analisado?

Atribuir uma operação a “um protocolo” é diferente de identificar uma pessoa responsável por uma ação específica.

10. A maior fonte de erro: confundir proximidade com propriedade

Se fundos passam por um endereço, isso não significa que o controlador anterior continue controlando o próximo.

Exemplos:

  • depósito em exchange;

  • contrato de swap;

  • liquidity pool;

  • bridge vault;

  • merchant;

  • payment processor.

Por isso, tracing deve reconhecer mudanças de domínio de controle. Um depósito em carteira de exchange pode encerrar a atribuição puramente on-chain e exigir dados off-chain para continuar.

11. Como expressar confiança em um laudo

Em rastreamento de criptoativos, a transparência metodológica é tão importante quanto o grafo final. O relatório deve separar relações determinísticas (por exemplo, uma transferência efetivamente registrada) de relações heurísticas (como pertencimento provável a um mesmo cluster) e de atribuições externas (tags fornecidas por exchange, provedor de inteligência ou investigação anterior). Essa separação permite ao leitor saber quais trechos do raciocínio podem ser reproduzidos diretamente no ledger e quais dependem de inferência ou fonte externa.

Uma taxonomia útil:

Confirmado por dados on-chain — transação, valor, contrato, bloco.

Corroborado por fonte off-chain — conta de exchange, documento, apreensão.

Heurístico de alta consistência — método conhecido com múltiplos sinais convergentes.

Heurístico exploratório — hipótese útil para investigação, insuficiente como conclusão isolada.

Indeterminado — dados disponíveis não suportam atribuição responsável.

Esse vocabulário evita que gráficos visualmente convincentes transmitam certeza maior que a metodologia.

Escala de confiança que distingue confirmação on-chain, corroboração off-chain, heurística e indeterminação.
Figura 3 — Níveis de confiança em blockchain forensics

12. Brasil em 2026: mais registros regulatórios, mais pontos de correlação

A regulamentação brasileira evoluiu rapidamente. A Resolução BCB 520/2025 passou a disciplinar prestadoras de serviços de ativos virtuais. Em 2026, instruções complementares estabeleceram reporte de informações relacionadas a custódia, staking, reservas e outros aspectos operacionais.[9][10]

Do ponto de vista forense, maior formalização de VASPs tende a aumentar a relevância de registros off-chain, controles de custódia e trilhas de auditoria na correlação com transações públicas.

13. Conclusão

Blockchain forensics é poderosa porque combina um ledger verificável com análise de grafos e fontes externas. Seu maior risco é transformar uma técnica heurística em afirmação categórica.

Rastrear valores, agrupar endereços e identificar responsáveis são três operações distintas. O primeiro passo pode ser puramente on-chain. O segundo frequentemente é probabilístico. O terceiro normalmente exige corroborar a análise com dados off-chain.

Quanto mais complexo o ecossistema — mixers, bridges, DEXs, Layer 2 e DeFi — mais importante se torna explicitar premissas, algoritmos e níveis de confiança. O objetivo da perícia não é produzir o gráfico mais impressionante; é produzir uma conclusão reproduzível e proporcional à evidência.

Referências

  1. Atlam, H.F.; Ekuri, N.; Azad, M.A.; Lallie, H.S.

    Blockchain Forensics: A Systematic Literature Review of Techniques, Applications, Challenges, and Future Directions

    . Electronics, 2024. https://doi.org/10.3390/electronics13173568

  2. Improved Bitcoin simulation model and address heuristic method

    . Forensic Science International: Digital Investigation, 2025, 53, 301935. https://doi.org/10.1016/j.fsidi.2025.301935

  3. Tippe, P.; Deckers, C.

    Unmixing the mix: Patterns and challenges in Bitcoin mixer investigations

    . 2025. https://doi.org/10.1016/j.fsidi.2025.301876

  4. Tumbling down the stairs: Exploiting a tumbler’s attempt to hide with ordinary-looking transactions using wallet fingerprinting

    . 2025. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666281725000083

  5. Yan, T.; Huang, C.; Tessone, C.

    Tracing Cross-Chain Transactions Between EVM-Based Blockchains

    . Ledger, 2025. https://doi.org/10.5195/ledger.2025.433

  6. A Full-Node Blockchain Forensic Framework for Cross-Layer Virtual Asset Tracking

    . Electronics, 2026. https://www.mdpi.com/2079-9292/15/17/3849

  7. FATF.

    Targeted Report on Stablecoins and Unhosted Wallets — Peer-to-Peer Transactions

    . 2026. https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Virtualassets/targeted-report-stablecoins-unhosted-wallets.html

  8. FATF.

    Targeted Report on Regulatory Challenges from Decentralised Finance

    . 2026. https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Virtualassets/targeted-report-decentralised-finance-2026.html

  9. Banco Central do Brasil.

    Resolução BCB nº 520/2025

    . https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?numero=520&tipo=Resolu%C3%A7%C3%A3o+BCB

  10. Banco Central do Brasil.

    Instrução Normativa BCB nº 713/2026

    . https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?numero=713&tipo=Instru%C3%A7%C3%A3o+Normativa+BCB

  11. Nicholls, J.; Kuppa, A.; Le-Khac, N.-A.

    The next phase of identifying illicit activity in Bitcoin

    . International Journal of Network Management, 2024. https://doi.org/10.1002/nem.2259

  12. FATF.

    Seventh Targeted Update on Implementation of the FATF Standards on Virtual Assets and VASPs

    . 2026. https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Fatfrecommendations/targeted-updated-virtualassets-vasps-2026.html

Nota editorial: técnicas de clustering e atribuição devem ser documentadas e validadas para a blockchain e o período analisados.

Alan Badenas

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