Evidência Digital

Biometria, token e autenticação: quais evidências realmente demonstram uma operação bancária?

Por Alan Badenas dos Santos · Publicado em 5 de outubro de 2026 · 9 min de leitura

Capa do artigo sobre biometria, tokens e autenticação bancária, com uma impressão digital sobre um dispositivo.
Neste artigo

Uma autenticação válida demonstra que determinado mecanismo foi satisfeito; não necessariamente quem realizou a operação nem se a transação específica foi conscientemente autorizada.

Em uma frase

Autenticação, controle do autenticador, identidade humana e autorização da transação são proposições diferentes.

Resumo executivo

A expressão “operação autenticada” pode esconder arquiteturas radicalmente diferentes: senha, OTP, token físico ou lógico, biometria local, push approval, certificado, chave criptográfica ou passkey. Para fins periciais, o ponto decisivo é compreender o que o mecanismo realmente prova, como a credencial foi emitida, vinculada e recuperada, e quais registros demonstram sua utilização. Este artigo apresenta uma leitura técnica dos principais mecanismos de autenticação contemporâneos, com base nas diretrizes NIST e no WebAuthn Level 3, e discute os cuidados necessários para transformar eventos de autenticação em evidência processual tecnicamente defensável.

Palavras-chave: autenticação; biometria; token; MFA; WebAuthn; passkeys; fraude bancária.

1. “Autenticado” não responde sozinho à pergunta de autoria

Quando um sistema informa que uma operação foi autenticada, a perícia precisa perguntar: por qual mecanismo, com qual nível de garantia e em qual contexto?

Autenticação é o processo pelo qual um sistema verifica uma alegação de identidade ou posse de credencial. O NIST SP 800-63B-4 diferencia autenticadores e níveis de garantia, reconhecendo que métodos distintos oferecem resistências diferentes a phishing, replay, roubo de credenciais e comprometimento.[1]

Uma senha correta demonstra conhecimento de um segredo. Um OTP demonstra acesso temporário a um canal ou gerador. Uma chave privada demonstra controle operacional daquela chave. Uma biometria pode liberar localmente uma chave, sem que a aplicação receba qualquer dado biométrico. Essas evidências não são intercambiáveis.

2. Três fatores clássicos — e a arquitetura por trás deles

A autenticação costuma combinar fatores de três categorias:

  • algo que o usuário sabe:

    senha, PIN;

  • algo que possui:

    telefone, token, chave criptográfica;

  • algo que é:

    característica biométrica.

O uso de múltiplos fatores tende a elevar a resistência a certos ataques, mas a segurança efetiva depende da independência entre fatores e do processo de recuperação. Um sistema pode exigir MFA no login e, ainda assim, permitir recuperação de conta por um fluxo mais fraco. Em investigação de fraude, o elo mais fraco pode estar justamente na emissão, migração ou reset da credencial.

Por isso, a linha do tempo deveria incluir não apenas a transação, mas também:

  • emissão inicial do autenticador;

  • cadastro de novo aparelho;

  • troca de telefone ou e-mail;

  • recuperação de conta;

  • redefinição de senha/PIN;

  • ativação de token;

  • inclusão ou remoção de biometria;

  • revogação de credenciais.

3. Senhas e PINs: conhecimento não é identidade

Senha e PIN são autenticadores baseados em conhecimento. O fato de uma senha correta ter sido usada é relevante, mas não demonstra como ela foi obtida.

Phishing, reutilização de senha, malware, engenharia social, shoulder surfing e compartilhamento voluntário ou involuntário são hipóteses possíveis. A perícia não precisa presumir nenhuma delas; deve procurar registros que as tornem mais ou menos compatíveis com os eventos observados.

Questões úteis incluem número de tentativas, origem das tentativas, mudança recente de senha, método de reset e existência de alertas de risco.

4. OTP, SMS e tokens temporários

One-time passwords possuem vida curta e reduzem o valor de uma senha estática roubada. Contudo, seu valor probatório depende do canal e do desenho do protocolo.

Um OTP por SMS demonstra que o código enviado ao número foi apresentado ao sistema; não necessariamente demonstra quem estava com o telefone. Ataques envolvendo SIM swap, engenharia social e acesso remoto precisam ser tecnicamente distinguíveis quando houver dados disponíveis.

Tokens gerados em aplicativo podem ter propriedades diferentes. É importante saber se a validação foi puramente temporal, vinculada a transação específica, associada ao dispositivo ou combinada a confirmação contextual.

5. Biometria: verificação probabilística e arquitetura local

Biometria costuma ser um dos elementos mais superestimados em documentos técnicos simplificados.

Primeiro, a comparação biométrica é probabilística: um sistema decide se uma amostra é suficientemente semelhante a um template segundo parâmetros de operação. Segundo, em plataformas móveis modernas, o banco pode não receber imagem de face ou impressão digital. O sistema operacional pode realizar a verificação em ambiente protegido e apenas liberar o uso de uma chave ou informar sucesso à aplicação.

Isso é diferente de uma verificação biométrica remota, na qual o prestador recebe uma amostra ou um resultado de matching associado a processo próprio. Em perícia, dizer apenas “houve biometria” sem identificar qual dessas arquiteturas foi usada pode produzir uma conclusão tecnicamente ambígua.

Comparação entre biometria local e remota, com arquiteturas e limites probatórios distintos.
Figura 1 — Biometria local e biometria remota: arquiteturas e significados probatórios diferentes

Assim, “autenticado com biometria” pode significar, tecnicamente, “o sistema operacional informou que sua política local de autenticação foi satisfeita”. Para avaliar o peso desse evento, interessa saber:

  • modalidade biométrica;

  • onde ocorre o matching;

  • onde o template é armazenado;

  • se há fallback por PIN;

  • se novas biometrias podem ser adicionadas sem revalidação bancária;

  • qual chave ou operação é liberada após sucesso;

  • se o banco registra apenas sucesso/falha ou também contexto adicional.

As diretrizes NIST de 2025 reforçaram requisitos e considerações sobre biometria dentro de identidade digital.[1][2] No ambiente Pix, requisitos operacionais de registro de dispositivos e confirmação reforçada de identidade também tornam relevante reconstruir a cronologia de cadastramento do aparelho, especialmente quando ele é novo ou foi alterado próximo à transação.[7]

6. Chaves públicas, passkeys e WebAuthn

A autenticação baseada em chave pública representa mudança importante. Em vez de enviar um segredo compartilhado, o autenticador usa uma chave privada para produzir uma prova criptográfica verificável pelo serviço.

O WebAuthn Level 3, Recomendação W3C publicada em agosto de 2026, define credenciais de chave pública vinculadas ao relying party e mediadas por autenticadores, com mecanismos de assinatura e, quando aplicável, attestation.[3]

Do ponto de vista pericial, isso pode fornecer evidência técnica forte de que determinada credencial criptográfica participou do protocolo. Mas permanece necessário separar:

controle da chave ≠ identidade física de quem acionou o autenticador.

A inferência para autoria humana requer compreensão do desbloqueio do autenticador, do dispositivo, da sincronização de passkeys, do fluxo de recuperação e de eventual comprometimento. Em credenciais sincronizadas, por exemplo, a investigação pode precisar considerar a conta de sincronização, a inclusão de novos dispositivos e o processo de recuperação — não apenas o terminal em que a operação foi observada.

Fluxo de autenticação WebAuthn com participação de passkey e credencial criptográfica.
Figura 2 — WebAuthn e passkeys: o que a participação da credencial criptográfica demonstra

7. Push approval e fadiga de autenticação

Aplicativos bancários e corporativos podem solicitar aprovação por push. Esse modelo facilita a experiência do usuário, mas pode sofrer ataques de MFA fatigue, nos quais múltiplas solicitações são enviadas até que uma seja aprovada por engano ou pressão.

Em uma perícia, o registro “push approved” precisa ser contextualizado:

  • quantas solicitações ocorreram?

  • em qual intervalo?

  • o push mostrava valor e destinatário?

  • a aprovação exigia biometria/PIN?

  • o dispositivo estava previamente vinculado?

  • houve novo login ou recuperação de conta antes do evento?

A semântica do evento é tão importante quanto seu status.

8. Autenticação da sessão e autorização da transação não são a mesma coisa

Outro ponto decisivo é distinguir login de autorização transacional.

Um usuário pode autenticar-se às 10h e realizar transação às 10h40 dentro da mesma sessão. A aplicação pode ou não exigir step-up authentication para determinadas operações. Por isso, é necessário mapear:

  • início da sessão;

  • validade da sessão;

  • reautenticações;

  • alterações de contexto;

  • operação que disparou step-up;

  • credencial usada especificamente para autorizar o pagamento.

Afirmar que uma transferência “teve biometria” exige demonstrar se a biometria se relaciona àquela transação ou apenas ao login anterior.

Uma forma útil de organizar a prova é separar quatro proposições: (1) identidade cadastrada, (2) posse ou controle do autenticador, (3) autenticação da sessão e (4) autorização da transação específica. Cada uma pode estar sustentada por registros diferentes. A evidência de uma etapa não deve ser silenciosamente promovida a prova da etapa seguinte.

Quatro proposições separadas na análise bancária: identidade, controle do autenticador, sessão e autorização da transação.
Figura 3 — Quatro proposições que não devem ser confundidas na análise de uma operação autenticada

9. Que evidência deveria ser preservada

Um pacote tecnicamente útil pode incluir:

  • identificadores da credencial, sem expor segredo;

  • data de emissão e vinculação;

  • histórico de dispositivos;

  • logs de autenticação e autorização;

  • mecanismo e assurance level interno;

  • desafio e resultado criptográfico quando tecnicamente cabível;

  • eventos de recuperação e reset;

  • notificações enviadas;

  • timestamps sincronizados;

  • identificadores de sessão;

  • versões do aplicativo e sistema operacional;

  • logs antifraude associados.

A ISO/IEC 27037 e o NIST SP 800-86 fornecem princípios de identificação, coleta, preservação e análise de evidência digital.[4][5] A ISO/IEC 27042 complementa esse conjunto ao exigir que análise e interpretação sejam suficientemente documentadas para permitir avaliação de validade, reprodutibilidade e repetibilidade.[8]

10. Perguntas periciais que realmente discriminam hipóteses

Em vez de “a biometria confirma a transação?”, perguntas melhores são:

  • qual autenticador foi usado na operação contestada?

  • a autenticação ocorreu no login ou na autorização específica?

  • o mecanismo era phishing-resistant?

  • houve cadastro ou recuperação recente de credencial?

  • qual dispositivo mantinha a chave/token?

  • existe fallback para método menos robusto?

  • o servidor registra a prova criptográfica ou apenas um status derivado?

  • o fluxo de recuperação apresenta nível de segurança equivalente ao fluxo normal?

  • há convergência entre autenticação, dispositivo, rede, sessão e comportamento?

O objetivo não é tornar o laudo mais complexo, mas torná-lo epistemicamente mais claro.

11. Conclusão

A evolução de MFA, biometria, passkeys e autenticação criptográfica aumenta a segurança dos sistemas e pode produzir evidências técnicas muito mais ricas. Mas nenhuma tecnologia elimina a necessidade de interpretação.

A pergunta correta não é apenas “o sistema aceitou a autenticação?”. É: qual credencial foi aceita, em qual etapa, sob quais condições, como ela foi emitida ou recuperada e até onde esse evento permite inferir autoria?

Para litígios bancários, essa distinção é central. A prova técnica se fortalece quando identifica claramente o objeto medido, o protocolo executado, as premissas de segurança e os limites da conclusão.

Referências

  1. NIST.

    SP 800-63B-4: Digital Identity Guidelines: Authentication and Authenticator Management

    . 2025. https://csrc.nist.gov/pubs/sp/800/63/b/4/final

  2. NIST.

    SP 800-63-4: Digital Identity Guidelines

    . 2025. https://csrc.nist.gov/pubs/sp/800/63/4/final

  3. W3C.

    Web Authentication: An API for accessing Public Key Credentials — Level 3

    . W3C Recommendation, 25 Aug. 2026. https://www.w3.org/TR/webauthn/

  4. ISO/IEC.

    ISO/IEC 27037:2012 — Guidelines for identification, collection, acquisition and preservation of digital evidence

    . https://www.iso.org/standard/44381.html

  5. NIST.

    SP 800-86: Guide to Integrating Forensic Techniques into Incident Response

    . https://doi.org/10.6028/NIST.SP.800-86

  6. Banco Central do Brasil.

    Segurança no Pix

    . https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix-seguranca

  7. Banco Central do Brasil.

    Instrução Normativa BCB nº 491/2024 — requisitos e procedimentos relacionados ao registro de dispositivos para transações Pix

    , versão vigente atualizada em 2025. https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/exibenormativo?numero=491&tipo=Instru%C3%A7%C3%A3o+Normativa+BCB

  8. ISO/IEC.

    ISO/IEC 27042:2015 — Guidelines for the analysis and interpretation of digital evidence

    . https://www.iso.org/standard/44406.html

Nota editorial: autenticação é uma propriedade do protocolo e da credencial; atribuição de autoria humana requer análise contextual e correlação com outras evidências.

Alan Badenas

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